Postado em 04 de Maio às 16h30

Uso racional de medicamentos

Vida Saudável (33)

OMS recomenda, mas quais são os limites

A Organização Mundial da Saúde (OMS) promove o uso racional de medicamentos. O conceito é complexo. É preciso relativizá-lo levando em conta as diferenças culturais e socioeconômicas de cada país: “parte do princípio de que o paciente recebe o medicamento apropriado para suas necessidades clínicas, nas doses individualmente requeridas para um adequado período de tempo e a um baixo custo para ele e sua comunidade”, explica a OMS.

A conscientização sobre o uso de medicamentos é necessária. A própria OMS estima que em todo o mundo mais da metade de todos os medicamentos são prescritos, dispensados ou vendidos de forma inadequada, e que metade de todos os pacientes os utiliza de forma incorreta.

A oferta de alívio imediato de sintomas, as recomendações de amigos, o adiamento e custos das consultas médicas, são motivos para a automedicação.

Segundo pesquisa encomendada ao Instituto Datafolha pelo Conselho Federal de Farmácia, em 2019, quase 80% dos brasileiros fizeram uso de medicamentos sem prescrição médica, ou seja 168 milhões de brasileiros a não recorreram a serviço médico especializado para tratar dores e desconfortos ou sintoma. No entanto, esta prática apresenta riscos, atesta Leila Zanatta, professora doutora em Farmácia com experiência em toxicologia: “A automedicação pode resultar em ausência do efeito do medicamento, intoxicações, reações alérgicas ou desenvolvimento de outras reações adversas, isso porque muitas vezes o paciente não usa a dosagem correta dos medicamentos. Além disso, a automedicação pode mascarar sintomas de alguma doença em fase inicial”, declara doutora Leila Zanatta.

Doutor Rui Wolf, médico pediatra, neonatologista e professor licenciado, sustenta: "qualquer medicamento em excesso pode prejudicar o organismo, mesmo a vitamina C ou a aspirina (AS), quando utilizadas de maneira indevida, podem resultar em efeitos colaterais.” 

Dados da Fiocruz indicam que os medicamentos hoje são a principal causa de intoxicações no Brasil.

“Não existe medicamento isento de toxicidade. Todo medicamento, dependendo da dosagem e frequência utilizada, pode oferecer algum risco à saúde do indivíduo”, esclarece a doutora em Farmácia Leila Zanatta, especialista em toxicologia.

A automedicação ocorre quando há o uso de remédios sem a avaliação de um profissional da saúde. Já o uso indiscriminado de remédios ocorre quando há o consumo incorreto e constante de medicamentos, com ou sem receita médica.” Doutor Rui Wolf.

A associação da ideia de saúde com o uso de medicamentos faz com que os pacientes abusem das drogas, informa a Associação Médica Brasileira

Dados da consultoria IQVIA, empresa global associada ao segmento da saúde, de fevereiro de 2020, indicam que dentre os medicamentos isentos de prescrição (MIPs) mais vendidos estão os para dor, febre, gripes e resfriados e problemas gastrointestinais, vitaminas, minerais e suplementos.

Os MIPs representam 30% do mercado farmacêutico, informa a Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição (Abimip). De acordo com a associação “para que o uso de medicamentos sem prescrição seja seguro e consciente, o consumidor deve seguir as orientações da bula e do rótulo e ter em mente a regra de ouro para o uso de MIPs: se os sintomas persistirem, a suspensão do medicamento deve ser imediata e um médico deve ser procurado.”

Doutor Rui Wolf relata que “muitas bulas estabelecem a relação quilograma/mililitro (kg/ml), no entanto, dependendo do medicamento, o critério correto é a idade do paciente”.

Consumo irracional de medicamentos, segundo a OMS:

  • Uso de vários remédios (polifarmacia);
  • Uso inadequado de antibióticos, incluindo a dosagem incorreta;
  • Uso excessivo de injeções em nos casos em que as formulações orais são adequadas;
  • Receitas discordantes das orientações clínicas;
  • Automedicação inadequada, mesmo de remédios que requerem receita médica.

 

Resistência a tratamentos


Pesquisa da Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, até 2050, 10 milhões de pessoas no mundo poderão morrer a cada ano devido a doenças resistentes a medicamentos.

O uso incorreto de antibióticos pode resultar em resistência bacteriana. “Apesar destes medicamentos serem vendidos apenas com prescrição médica, muitas vezes as pessoas guardam as sobras de tratamento e reutilizam em outras situações sem orientação de um profissional da saúde”, explica doutora Leila Zanatta.

“Ao prescrever um antibiótico levamos em conta a idade e peso do paciente, local da infecção, a bactéria mais frequente naquele local, para então prescrever o antibiótico de eleição para a bactéria, na dosagem correta em mg/kg/dia, intervalo entre as doses e duração do tratamento”, assegura, doutor Rui Wolf.


Erros frequentes


Gestantes, Lactantes, crianças e idosos são os grupos que mais merecem cuidados no uso de medicamentos, incluindo fitoterápicos e homeopáticos. Ao administrar medicamentos às crianças ou idosos, muitos cuidadores, sem o saber, agem forma inadequada.

O Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos informa que entre os erros de medicação mais comuns envolvendo bebês menores de seis meses estão a administração do medicamento errado e na dose errada, incluindo a administração da mesma dose mais de uma vez. O uso de colheres e outros recipientes inadequados para medir a dose dos medicamentos é uma das principais causas dos erros.


O paracetamol e formulações para gripes e resfriados são exemplos de medicamentos comumente envolvidos nesses erros de medicação. Eles estão associados à ocorrência de danos graves e a uma grande variedade de eventos adversos, incluindo o aumento da frequência cardíaca, convulsões, coma e morte, ressalta o ISMP.

 

Uma farmácia em cada esquina

Em 2018 eram 95 mil farmácias e drogarias entre privadas e hospitalares, relata o Conselho Federal de Farmácia. Levantamento realizado pelo IQVIA, o mercado farmacêutico brasileiro vendeu R$ 215,6 bilhões em medicamentos em 2019.

Com a pandemia da Covid-19, 2020 deverá apresentar números bem mais altos já que muitos consumidores, na ânsia de se proteger, buscaram remédios para dor, febre, vitaminas – classificados como medicamentos isentos de prescrição (MIPs).

Se por um lado a expansão do setor é positiva, gera empregos e arrecadação de impostos, por outro pode esconder um problema de saúde coletiva. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS) dentre os danos do uso excessivo e irracional de medicamentos estão o estímulo à demanda por medicamentos e a perda de confiança nos sistemas de saúde - 80% dos brasileiros dependem do Sistema Único de Saúde (SUS). Já a Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição (Abimip) entende que “entre os benefícios do uso responsável dos medicamentos isentos de prescrição, estão a diminuição substancial dos custos para o sistema de saúde e para os usuários, uma vez que não há necessidade de ir a um serviço de saúde para tratar de um sintoma conhecido.


Não use medicamentos indicados por outras pessoas, como amigos, vizinhos e parentes, mesmo que elas digam que tiveram os mesmos sintomas ou sinais que você. Doenças diferentes podem ter sintomas ou sinais parecidos ou até iguais, e você poderá usar um medicamento que poderá prejudicar ainda mais a sua saúde”, orienta o Ministério da Saúde.


 

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