Postado em 20 de Maio às 17h11

Nomofobia: medo irracional de ficar sem celular

Gestão de Saúde (33)

Centro especializado oferece detox digital e tratamento para usuários abusivos e dependentes tecnológicos. 

Você é daquelas pessoas que têm medo irracional de ficar sem o seu telefone celular? Ou que passa a madrugada no videogame? Ou, ainda, que troca a ida ao parque ou à praia por um computador? Você pode ser um usuário abusivo das tecnologias ou, caso esse uso esteja associado a algum transtorno psíquico como ansiedade, compulsão ou depressão, pode desenvolver uma dependência patológica que exige tratamento específico, seguido de detox digital.

Quem explica melhor os limites entre o uso excessivo e uma dependência patológica é a psicóloga carioca, doutora em saúde mental, Anna Lucia Spear King. Ela é autora de cinco livros sobre o tema, além de fundadora e diretora do Instituto Delete, centro pioneiro no Brasil de Desintoxicação de Tecnologias do Instituto de Psiquiatria (IPUB), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O núcleo existe desde 2013 dentro da UFRJ e atende usuários abusivos e dependentes das tecnologias com educação digital, tratamento e orientações para uso consciente.

Em suas obras, King detalha o que é nomofobia: medo irracional de ficar sem celular e os impactos das novas tecnologias no comportamento humano nas áreas clínicas, psicológicas, social, familiar, acadêmica e profissional.

A palavra nomofobia tem origem de uma composição em inglês: no + mobile + phone + phobia. O termo foi criado pela YouGov, uma instituição de pesquisa sediada no Reino Unido.

A pesquisadora orienta para o uso consciente de tecnologias na sociedade - etiqueta digital; ensina posturas e mobiliários corretos para uso no dia a dia - ergonomia digital; educa crianças, de forma lúdica, a usar as tecnologias na Cartilha Digital e projeta como será a humanidade em 2030 convivendo com tanta inovação tecnológica no livro Novos Humanos 2030.

Para a psicóloga, é importante diferenciar o uso excessivo relacionado à falta de educação sobre o tema, das doenças que acabam potencializadas pela dependência tecnológica.

“Estamos usando muito as tecnologias, toda hora. Mas a nossa geração não aprendeu a usá-las de uma maneira educada em sociedade, como fomos educados desde crianças para nos comportarmos à mesa e a não falarmos com estranhos, por exemplo. Então a gente usa em cinema, teatro, sala de espera, elevador, metrô, ônibus, durante as refeições e em encontros com amigos. Todo mundo é usuário sem controle excessivo, mas não quer dizer que todo mundo esteja dependente. A dependência patológica é aquela que existe algum transtorno associado, como ansiedade, depressão, compulsão, pânico, potencializados pelo uso das tecnologias. Então é essa pessoa que precisa receber o tratamento do transtorno primário para poder reduzir o uso”.

A média de horas diárias gastas em celulares pelos brasileiros é a mais alta do mundo: quatro horas e 48 minutos.

Mal-educados ou dependentes? 

O Instituto Delete atende gratuitamente 20 pacientes por semana, em triagens feitas toda sexta-feira, às 8h. A maioria é jovem, público mais conectado, da faixa etária entre 12 e 30 anos, com procura também de pessoas até os 60, porém em menor quantidade. A triagem separa os pacientes que apresentam indícios de dependência patológica e os que precisam apenas de orientações para reduzir o uso das tecnologias. 

Para saber se é dependência, os pacientes passam por avaliações psicológica e psiquiátrica e, então, são encaminhados para o tratamento adequado.

Caso o paciente apresentar uso abusivo, passa por detox e etiqueta digital para aprender a usar as tecnologias de forma mais consciente, através de treinamento, consultoria e suporte da equipe do Instituto, formada por profissionais das áreas de psicologia, psiquiatria, pedagogia e pesquisadores dos ramos de comunicação e educação. Se o paciente apresentar sinais de dependência patológica, associada a algum transtorno psíquico, é encaminhado para tratamento psicológico e psiquiátrico para, primeiro, curar a doença base e, com isso, reduzir os impactos potencializados pelo uso das tecnologias.

De acordo com a psicóloga e diretora do Instituto Delete, Anna Lucia Spear King, de cada 100 pacientes, apenas 10 são diagnosticados como dependentes patológicos.

“Se a pessoa já tem uma compulsão diagnosticada, um transtorno compulsivo obsessivo, provavelmente ela vai ficar doente, dependente do uso, porque as tecnologias são um canal de representação de algo que já existe em você. Se a pessoa é compulsiva, ela vai usar a tecnologia para ficar viciada em jogo, em site pornográfico, em compras, porque ela tem uma compulsão que precisa ser extravasada e ela usa a tecnologia para isso. Se a pessoa tem, por exemplo, depressão, vai procurar não se sentir sozinha, mas pode agravar a depressão quando ela vê que a vida dos outros é melhor que a dela, porque todo mundo só posta uma vida maravilhosa nas redes, que não é real. Um ansioso, por exemplo, que vê que a mensagem do WhatsApp foi lida, mas não respondida, vai ficar mais agitado. As tecnologias muitas vezes refletem a personalidade individual. Nestes casos, é preciso tratar o transtorno primário, a doença base. A tendência, com isso, é reduzir a necessidade de usar tanto a tecnologia”.

E os outros 90, onde se encaixam? King classifica como mal-educados para o uso das tecnologias em sociedade.

“A grande maioria das pessoas não tem o transtorno associado, usa por falta de educação mesmo, de uma maneira exagerada. É importante saber que há essa diferenciação. Elas precisam, simplesmente, de orientação para o uso consciente de tecnologia, precisam de uma etiqueta digital. As pessoas usam muito, por muitas horas, mas não quer dizer que elas são dependentes, viciadas, são mal-educadas. Elas precisam não de tratamento médico, mas de uma educação para usar de uma maneira melhor. Ter limite de uso, respeitar a presença dos outros, não deixar de praticar atividade física, não usar celular na hora das refeições. Existe um uso excessivo e mal-educado. A gente passa toda essa orientação”.

Como identificar?

A psicóloga Anna Lucia Spear King tem uma dica para identificar se você é um usuário abusivo ou apresenta sinais de dependência patológica. O primeiro passo é perceber se o uso das tecnologias está comprometendo de alguma forma a sua vida pessoal, familiar, social ou profissional.

“Quando você começa a perceber problemas que estão prejudicando relacionamentos e a ouvir reclamações das pessoas, é sinal de que alguma coisa está errada”, orienta King ao ressaltar que caso tenha algum transtorno psíquico já diagnosticado, você pode se tornar um dependente patológico. A orientação é buscar ajuda.
“Muitas pessoas não sabem o que elas têm e se questionam se o uso excessivo diário se dá pelo trabalho, por não saberem usar as tecnologias, por falta de controle, ou se tem alguma relação com algum transtorno primário, por exemplo. A gente mesmo não respeita mais o horário comercial, o nosso chefe fica mandando mensagem fora do expediente, respondemos e-mail e WhatsApp na madrugada... O dia que as pessoas forem educadas para o uso das tecnologias, vão usufruir dos benefícios delas e evitar os prejuízos”.

Veja também

Home Care em alta09/07/19 Assistência médica domiciliar cresce no Brasil e abrange mais de 670 empresas e 230 mil profissionais Keli Magri Há mais de um século, uma cena era comum em pequenas e grandes cidades: o médico da família ou o responsável pela saúde pública local, costumava ir até a casa dos pacientes para prestar atendimento. Diagnóstico,......
Transplante de Tecido Ocular29/03/18Banco de Olhos de Volta Redonda é responsável por 40% dos transplantes no estado do Rio de Janeiro. O Banco de Tecido Ocular de Volta Redonda, inaugurado em 2010, soma 1.196 córneas fornecidas para transplante até 2017 e é responsável por 40% dos procedimentos realizados no estado do Rio de Janeiro. Em 2018, o estado realizou......
Aumentam os focos de Aedes aegypti em Santa Catarina16/08/17Boletim epidemiológico aponta aumento de casos de febre de chikungunya no estado. Foto: Eduardo Seidl | Palácio Piratini O número de focos do mosquito Aedes aegypti vem crescendo em Santa Catarina. Em apenas 15 dias, 121 novos focos foram identificados no estado, de acordo com o boletim epidemiológico divulgado......

Voltar para NOTÍCIAS