Postado em 18 de Dezembro de 2019 às 15h36

Síndrome do coração partido

Ciência (4)

Estresse físico e emocional causa descarga de adrenalina no coração e pode levar à insuficiência cardíaca temporária similar ao infarto

Por Keli Magri

Dor no coração. Pode ser saudade de quem se foi, preocupação com uma doença grave, trauma causado por um acidente ou uma separação conjugal. O órgão responsável pela circulação do sangue no corpo sente um descompasso a cada baque emocional que atinge corpo e alma. Mas até onde essa dor atrelada ao sentimento pode ser encarada como uma consequência normal de quem teve o “coração partido”?

É justamente para essa diferenciação que os médicos alertam: pode não ser só dor emocional. Falta de ar, pressão e dor no peito, suor excessivo, arritmia, cansaço extremo e até desmaios podem ser sintomas de uma doença conhecida como síndrome do coração partido. Na medicina, leva o nome cientifico de Cardiomiopatia de Takotsubo e é caracterizada pelo mau funcionamento do ápice e da região central do ventrículo esquerdo do coração, condição que pode levar à insuficiência cardíaca temporária e simular o infarto agudo do miocárdio.

De acordo com o médico cardiologista, Gustavo Zenatti, a síndrome usualmente é desencadeada por situações de estresse agudo emocional ou físico que provocam descarga de adrenalina, a qual causa alteração cardíaca.

“É impossível distinguir na hora se é infarto ou a síndrome do coração partido. Porém, no infarto, há lesão, obstrução e na síndrome, a parte de baixo do miocárdio não bate e a parte de cima tem contração excessiva. Uma região para, outra acelera. Uma contrai e outra para de contrair. Por isso coração partido. O quadro inibe a região que controla o sistema do corpo e exacerba a região emocional”, explica o médico ao destacar que o descompasso impede que que as células musculares do coração exerçam suas funções adequadamente.

A síndrome foi descoberta em 1990 no Japão, quando os médicos identificaram as características da cardiomiopatia induzida por estresse e estabeleceram uma analogia entre a imagem do coração partido e a de uma armadilha em forma de vaso de fundo arredondado e pescoço estreito, utilizada para capturar polvos no Japão. Daí vem o nome cardiomiopatia de takotsubo (tako = polvo + tsubo = vaso, pote) pelo qual a doença também é conhecida.

Doença tem cura e não deixa marcas

De acordo com o médico cardiologista, Gustavo Zenatti, há um perfil mais propenso a desenvolver a síndrome do coração partido. A maior incidência é em mulheres no período da menopausa, devido à ausência de estrogênio no organismo. Também, é mais comum em asiáticos (57%), brancos (40%), acima dos 60 anos (67%).

Conforme as estatísticas médicas, os gatilhos para a síndrome são estresse físico (36%) e estresse emocional (27%), porém ressalta-se que 28% dos pacientes não apresentam causa evidente. Entre os fatores de risco, 27% apresentam-se como doenças neurológicas e 42% com depressão.

“A associação de ansiedade e depressão aumenta em 80% o risco da síndrome. Além disso, doenças crônicas, problema amoroso, problemas financeiros, doenças neurológicas e psiquiátricas, uso de drogas, acidentes, desastres naturais e cirurgias são fatores de risco”.

O médico alerta para a dificuldade do diagnóstico da síndrome, já que a doença tem relação emocional que passa de forma despercebida no pronto socorro pela semelhança com o infarto.

“Só conseguimos diagnosticar a síndrome quando excluímos o infarto, por meio dos exames de eletrocardiograma, cateterismo, ecocardiograma e exames de sangue. Através deles, percebemos que há um mau funcionamento do coração, mas que não se trata de lesão ou obstrução. Hoje, no mundo, só 2% dos infartos são diagnosticados como síndrome do coração partido”.

A boa notícia é que depois de diagnosticada, a síndrome dura de quatro a oito semanas para normalizar o funcionamento do coração. Além disso, tem evolução benigna e prognóstico favorável, já que não deixa marcas permanentes no coração.

“A recuperação é completa, mas pode haver reincidência. É importante frisar que não existe medicação para a síndrome, porque ela é causada por fatores psicológicos, traumáticos, estresse. É preciso tratar esses fatores, ou seja, a doença da base, 80% depressão e ansiedade”.

Conforme Zenatti, quem tem a síndrome tem mais chance de infarto, mas são raros os casos em que a doença pode levar o paciente a óbito.

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