Postado em 25 de Setembro às 08h40

A floresta que fabrica chuva

Resp. Ambiental (29)

Rios voadores gerados pelas árvores da Amazônia carregam 20 bilhões de toneladas de água por dia e representam a evolução da vida com a atmosfera. Por outro lado, desmatamento provoca mudanças climáticas e coloca em risco o abastecimento no Brasil

Keli Magri

Uma árvore consegue absorver mais de três mil litros de água de chuva, capazes de reduzir a contaminação dos lençóis freáticos em 7%. Em um ano, uma árvore consegue absorver 22 quilos de gás carbônico e produzir oxigênio suficiente para a respiração de dois adultos. Se uma delas tem tanto impacto no planeta, você seria capaz de mensurar o resultado de 400 bilhões?

Este é o número de árvores que compõem a Floresta Amazônica, maior floresta tropical do mundo, que abrange 40% do território brasileiro, 5.500.000 km² de área, e é responsável por 20% da água doce do planeta. Toda essa imensidão verde não é apenas área de preservação, mas uma floresta que funciona como uma usina de serviço ambiental, um irrigador da atmosfera capaz de fabricar chuva e manipular o clima.

A explicação é aparentemente simples. Mesmo distante 3.000 quilômetros, as árvores da floresta puxam a umidade do oceano, fonte primordial de toda a água. A circulação atmosférica entra na floresta, provoca chuva, parte da água é infiltrada e outra parte volta para a atmosfera. Ao alcançar o lençol freático, a água é bombeada pelas raízes das árvores até as folhas, evapora e permanece na atmosfera em forma de umidade. É essa umidade que forma os chamados rios voadores, núcleos de condensação de nuvens que cruzam a região norte, batem na Cordilheira dos Andes e desviam rumo ao Sul do Brasil, levando a chuva para quase todo o País.

De acordo com o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), cada árvore da Amazônia alcança copa de 20 metros e chega a produzir mais de mil litros de água por dia. Isso corresponde a 20 bilhões de toneladas de água por dia gerados pela floresta, volume superior ao tamanho do Rio Amazonas, maior do País, que coloca 17 bilhões de toneladas de água diárias.

É por isso que a Floresta Amazônica é considerada uma fonte de umidade que, além de “fabricar” a própria chuva, exporta água para a região centro sul da América do Sul, que vai de Cuiabá a Buenos Aires, São Paulo a Cordilheira dos Andes. Essa região que forma um quadrilátero é verde e úmida e responde por 70% do PIB (Produto Interno Bruto) da América do Sul. No Brasil, as regiões mais beneficiadas pelos rios voadores são o Centro-Oeste, Sudeste e o Sul.

“O ar sobre a Amazônia é tão limpo de partícula, de poeira, quanto o ar no oceano e do oceano. E no oceano é semideserto, quase não chove. O que tem na Amazônia? Fonte de umidade. E o que faz chover? As folhas das árvores que tem compostos que evaporam e vão para a atmosfera. O que foi descoberto é que esses vapores produzem uma reação e precipitam na forma de poeira. Essas partículas são chamadas de aerossóis atmosféricos ou núcleos de condensação de nuvens, ou seja, a floresta Amazônia fabrica sua própria chuva. É uma evolução da vida com a atmosfera. Além de produzir umidade para si mesma, a floresta produz rios voadores, que explicam a região ser verde e úmida. É neste quadrilátero onde estão as hidrelétricas, a agricultura forte, indústria e grandes centros”, destaca Antonio Donato Nobre, engenheiro agrônomo, cientista e pesquisador titular do INPE.

Desmatamento altera clima e ameaça abastecimento

Se por um lado, esse curso d’água invisível que circula pela atmosfera e se dispersa por todo o continente sul-americano é um fator determinante para a sustentabilidade do planeta, por outro, o contínuo desmatamento da Floresta Amazônica coloca toda a cadeia em risco.

De acordo com o pesquisador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Lincoln Muniz Alves, os 8 mil km² desmatados da Amazônia destruíram 200 bilhões de árvores e já provocaram o aumento das temperaturas no Brasil, especialmente na região Sul. Além da mudança climática em curso, se não freado, o desmatamento pode destruir os rios voadores e impactar na produção agrícola, na saúde pública e no abastecimento de água do Brasil.

“O desmatamento da Amazônia impacta diretamente no clima, que já está mudando. Temos uma temperatura média global maior próximo a superfície, cujo aquecimento deve ultrapassar em 2.100 o limite de 2°C. Na região Sul do Brasil, a temperatura já aumentou e provoca mudanças no ciclo sazonal da chuva, impactando diretamente na mobilidade urbana, com enchentes nas cidades. Se aumentar o desmatamento, este impacto pode resultar em mais chuvas no Sul e temperaturas ainda maiores, combinação que, na agricultura, resultaria na antecipação do afloramento do arroz e alteraria a irrigação e o crescimento do cereal. Na saúde, teremos o aumento de doenças causadas pelo mosquito Aedes Aegypti, transmissor da Dengue, Zika e Chikungunya. Não se trata de uma projeção, o cenário é realmente pessimista”, alerta o pesquisador.

“A Amazônia já teve 600 bilhões de árvores, agora tem 400 bilhões. Se o desmatamento continuar, os rios voadores vão morrer. Estamos transformando uma usina de serviço ambiental em gás”, acrescenta o cientista do INPE, Antonio Donato Nobre.

Para os pesquisadores, a solução do problema na Floresta Amazônica exige mudança de comportamento e integração de todos os estados brasileiros no debate da preservação.

“O que acontece na Amazônia reflete no Brasil inteiro, especialmente no Sul. Por isso é importante olharmos para o todo, não só para o local, porque tudo está relacionado. Em 2050, seremos 10 bilhões de pessoas no mundo consumindo alimentos, energia, água. Como vamos manter o quebra-cabeça da sustentabilidade? É uma questão de comportamento. Precisamos induzir a uma mudança de comportamento humano”, ressalta Lincoln Muniz Alves ao defender que “mudanças são questões de oportunidade, não de catástrofe”.

“Devemos olhar mais para a sustentabilidade, prevenção, integração das regiões, engajamento da sociedade se reconhecendo como parte do problema. Todos os estados devem criar uma base de dados para quantificar as informações e rever vulnerabilidades expostas às mudanças. Não se pode usar a incerteza como inação. Devemos institucionalizar o debate, especialmente na gestão pública”. 

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