Postado em 18 de Maio às 14h31

Déficit de natureza

Educação Ambiental (23)

Falta de contato com a natureza pode causar problemas à saúde.

Um dos lados positivos dessa quarentena foi a redução da poluição e da emissão do gás ozônio. Pudemos vislumbrar, mesmo que do alto de prédios residenciais, o espetáculo das estrelas e do brilho da lua. Vimos imagens incríveis dos canais de Veneza com águas cristalinas e fotografias evidenciado as belezas das montanhas do Himalaia. As redes sociais foram inundadas por adjetivos de encantamento.

Quem viveu o isolamento social sentiu os efeitos negativos de um confinamento permeado por incertezas e impossibilidades. De uma hora para outra, nos vimos impedidos de caminhar livremente, frequentar praças e praias. Sorte daqueles que tinham uma casa de campo, chácara ou sítio para fugir, ou mesmo um gramado verde em frente à casa.

Raquel da Rosa, analista de administração, mãe do Davi (8), relata as dificuldades vividas durante este momento de pandemia, embora saiba que a quarentena e o isolamento social são necessários. “Sinto falta de caminhar no final de semana, correr com meu filho no parque, por exemplo. Videogame e televisão ganharam um espaço maior nas atividades dele, mas não deixo que extrapole. Vamos nos adaptando e aproveito para mostrar ao Davi o quão valioso é poder estar em contato com a natureza”.

A vida urbana é cercada de cimento, asfalto e ruídos do trânsito. Aparelhos eletrônicos e salas de jogos em shoppings tomam lugar dos pés na grama e brincadeiras no quintal. Resultado da mudança no comportamento de vida das pessoas nas últimas décadas, o fato de vivermos cada vez mais trancados não é nada saudável comparado aos benefícios do contato com a natureza.

Ambientes coorporativos buscam nos esportes de natureza a reorientação e equilíbrio da equipe, evidenciando, claro, o aumento da motivação e produtividade. Engenharia e arquitetura oferecem espaços inovadores com forte ligação com a natureza, inserindo nas construções telhados verdes e interconexão com plantas de pequeno e médio porte. Não que haja comprovação científica dos benefícios de ter uma horta ou uma árvore em casa, mas o simples fato de podermos olhar para um ser vivo em vez de eletrônicos, desestressa.

Mais natureza, menos doenças

Richard Louv, escritor e jornalista norte-americano, alerta para os distúrbios por trás da cultura citadina. Síndrome ou transtorno de déficit de natureza, termo linguístico criado por Louv em 2008, define o conjunto de problemas físicos e mentais decorrentes da falta de contato com mundo natural. Em "A Última Criança na Natureza", traduzido em mais de 15 idiomas, Louv diz que é preciso equilibrar os efeitos causados pela imersão tecnológica com doses de natureza. Segundo ele, quanto mais tecnologias adquirimos, de mais natureza precisamos. 

O escritor conversou com pais, professores e médicos, e chegou à conclusão de que a falta de contato das crianças com a natureza causa problemas como obesidade, depressão, hiperatividade e déficit de atenção. Louv entende que medidas simples como caminhadas curtas em parques ou o cultivo de uma hortinha na varanda de casa ajudam a combater uma série de problemas da vida moderna.

É frequente ouvirmos de pais e avós, quando uma criança coloca na boca um alimento que caiu no chão, que um pouco de vitamina “S”, de sujeira, faz bem. Pesquisas sobre o microbioma (micróbios que habitam o corpo humano) indicam que a ausência de alguns tipos de microorganismos na primeira infância pode ser prejudicial para a regulação do sistema imunológico. Louv fala em vitamina “N”, de natureza, ressaltando a necessidade de estreitar laços com o ambiente natural.

Adultos e crianças são impactados pela carência de natureza. Estresse, ansiedade, distúrbio do sono, miopia e sedentarismo são alguns problemas causados pelo confinamento a que são submetidos pelas condições da vida moderna ou, também, por simples escolha. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), atualmente, 84% da população brasileira vive em áreas urbanas.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) reconhece que estudos científicos sobre a importância do convívio com a natureza ganharam força nas últimas décadas, por isso, lançou no ano passado um manual de orientação: "Benefícios da Natureza no Desenvolvimento de Crianças e Adolescentes". O manual considera que conviver com a natureza melhora o controle de doenças crônicas, diminuiu o risco de dependência química, favorece o desenvolvimento neuropsicomotor, reduz problemas de comportamento e proporciona bem-estar. Além disso, também contribui para o desenvolvimento da criatividade, autoconfiança, capacidade de escolha e do senso de empatia e pertencimento.

“Estamos vivendo a era da intoxicação digital, com a perda de contato com o mundo real e das relações presenciais. A internet nos dá a falsa sensação de segurança, mas é um ambiente de risco se o uso não for mediado com cuidado. As crianças precisam “fazer fotossíntese”, brincar e retomar o convívio social”, enfatiza a pediatra, Evelyn Eisenstein, uma das organizadoras do manual da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Prescrição: natureza

Evelyn explica, ainda, que os pediatras são orientados, dentro do contexto de cada paciente, a receitar brincadeiras ao ar livre. “A prescrição de natureza não é a solução para todos os problemas de saúde das crianças e adolescentes, mas certamente é um fator relevante para o desenvolvimento saudável dentro do conceito de pediatria integral”, esclarece.

Quando a vida passa a girar entre as quatro paredes de nossas moradas, a visão aflora, fica mais sensível, aguçada. Com espaços ao ar livre, praias, bares, restaurantes e locais de convívio coletivos encerrados, muitas pessoas passaram a dar mais valor ao ambiente externo, ao trabalho, ao comércio local.

Ver o pôr do sol e as estrelas são atividades simples e interessantes a serem estimuladas. O contato com a natureza pode ser mínimo, mas a recomendação é que seja frequente. 

Passado o período de isolamento social, se proponha a conhecer novos espaços de lazer ao ar livre, observar pássaros, correr e subir em árvores. Incluir a natureza em nossas vidas no pós-quarentena, dependerá, substancialmente, de cada um.

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