Postado em 12 de Junho de 2017 às 11h29

Crise na Hemodiálise

Especial (10)

A falta de sustentabilidade econômica do setor agrava situação dos pacientes renais crônicos no País.

Por Carol Bonamigo

Simone Wilke tinha apenas 23 anos quando uma anemia muito forte começou a afetar sua saúde. O diagnóstico mostrou que tinha lúpus – doença inflamatória causada quando o sistema imunológico ataca seus próprios tecidos –, o que acabou atingindo seus rins. “Não conseguia me alimentar direito, estava apenas pele e osso. Cada médico dizia algo diferente, até que um exame identificou o problema no rim e fui encaminhada para a clínica, para iniciar o tratamento de hemodiálise”, conta a vendedora.

Procedimento indicado para pacientes com insuficiência renal aguda ou crônica graves, a hemodiálise é uma prática através da qual uma máquina limpa e filtra o sangue, ou seja, faz parte do trabalho que o rim doente não pode fazer. O tratamento, geralmente realizado em clínicas especializadas ou hospitais, libera o organismo dos resíduos prejudiciais à saúde, como o excesso de sal e de líquidos. Também controla a pressão arterial e ajuda o corpo a manter o equilíbrio de substâncias como sódio, potássio, ureia e creatinina.

Foram dois anos em sessões constantes de diálises até Simone realizar a cirurgia, em janeiro de 2017, após três meses de espera na fila do transplante. “Tem gente que fica anos, tudo depende da compatibilidade. Graças a Deus deu certo, foi tranquilo e agora estou em acompanhamento”, relata.

Revista Servioeste - Saúde e Meio Ambiente - Simone Wilke realizou o transplante de rim no início de 2017. Apesar de parar com as sessões de hemodiálise, terá que fazer acompanhamento pelo resto da vida.
Simone Wilke realizou o transplante de rim no início de 2017. Apesar de parar com as sessões de hemodiálise, terá que fazer acompanhamento pelo resto da vida.

Mesmo ciente de que terá uma assistência para a vida toda, nada se compara ao sofrimento anterior. “Parar com as sessões de diálise será um alívio. Ficar na máquina por três horas, três dias por semana, não é fácil. Agora é uma vida nova, com certeza”, exalta.

Simone teve todo o seu tratamento e cirurgia realizados via Sistema Único de Saúde (SUS), em uma clínica especializada na cidade de Chapecó, Oeste de Santa Catarina. Mesmo estabelecimento onde Vilmuth Valer Kreps realiza suas sessões de hemodiálise. Há pouco mais de um ano, o aposentado de 79 anos se desloca três vezes por semana do interior de Caibi (cerca de 70 quilômetros) para fazer as sessões. Hoje, nem se importa com as constantes viagens e o desconforto que a máquina traz.

Observa apenas os benefícios. “Antes disso, me sentia mal e fadigado, chegava a desmaiar com frequência. Quando comecei com a diálise, o peso e o físico melhoraram muito. Mas a gente apanha para o resto. Audição, visão, memória, nada fica como era antes”, lamenta.

“Dizem que tudo começou na infância, de caminhar de pé descalço no inverno por vários quilômetros, no interior, para chegar à aula."

Mesmo assim, seu Vilmuth faz exercícios constantes e até participa de um time de bocha, aos sábados. Nada mal para quem passou por quatro dolorosas cirurgias na perna, ocasionadas por obstruções das veias. “Dizem que tudo começou na infância, de caminhar de pé descalço no inverno por vários quilômetros, no interior, para chegar à aula. Na época, a cidade mais próxima para realizar esses procedimentos era Passo Fundo, no Rio Grande do Sul”, lembra.

Demorou muito tempo até descobrir que o real problema do aposentado era um rim deficiente. Apesar de não ser um paciente apto a transplante, principalmente pela idade avançada, não se queixa das sessões. “Já vi casos aqui de pessoas que fazem hemodiálise há mais de 20 anos. Agora, posso dizer que essa máquina é o meu rim”, brinca, apontando para o dialisador.

Revista Servioeste - Saúde e Meio Ambiente - Vilmuth Kreps viaja 70 km, três vezes por semana, para realizar sessões de duas horas de hemodiálise. “Posso dizer que essa máquina é o meu rim”.
Vilmuth Kreps viaja 70 km, três vezes por semana, para realizar sessões de duas horas de hemodiálise. “Posso dizer que essa máquina é o meu rim”.

Situação do setor

Embora Simone e Vilmuth sejam exemplos de pacientes com sessões em dia e sem custos, infelizmente os profissionais da área relatam um cenário bem diferente, no qual o tratamento de doença renal crônica passa por uma grave crise econômica, que ameaça o acesso e a qualidade do serviço prestado por diversas clínicas de diálise que atendem via SUS. Dentre os principais fatores, a Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT) destaca a ausência de reajuste do valor da sessão de hemodiálise há quase quatro anos, com defasagem entre o custo efetivo da sessão e o valor pago atualmente pelo SUS em torno de 43%; a ausência de reajuste da Diálise Peritoneal há 13 anos; e atrasos constantes nos pagamentos decorrentes dos serviços prestados via SUS, pelo Fundo Nacional de Saúde. “A somatória desses fatores vem gerando grave endividamento em razão dos elevados índices de juros cobrados por instituições financeiras, ocasionando, inclusive, o fechamento de diversas unidades”, alerta o médico nefrologista Geraldo Córdova.

Diretor técnico da clínica especializada em Chapecó, atende 22 municípios da região catarinense. Para Córdova, este cenário é alarmante e traz grandes ressalvas sobre o futuro não apenas das clínicas, mas dos próprios pacientes. “Recentemente, os principais fornecedores de materiais para Diálise Peritoneal enviaram comunicado propondo aumento de 22% no reajuste dos contratos de fornecimento de insumos, informando que não serão aceitos novos pacientes para tais tratamentos, sendo honrados apenas aqueles que já se encontram em atendimento”, afirma.

A crise que afeta o setor chegou a tal ponto que a ABCDT orientou aos prestadores de serviço de diálise enviar uma notificação ao órgão gestor informando que, para fornecimento do atendimento adequado e para manter a vida das pessoas em tratamento, não serão admitidos novos pacientes acima do teto financeiro. “O Ministério da Saúde e os Gestores Estaduais e Municipais estão tratando os pacientes renais crônicos e as clínicas de diálise privadas, que prestam serviço ao SUS, com total e constante descaso. E a instituição, em apoio aos seus associados, se manifesta no sentido de denunciar a grave situação por que passa o tratamento dialítico”, disse a ABCDT no Manifesto da Crise da Nefrologia, em 2016.

Seguindo tal orientação, diversas clínicas protocolaram ofício aos seus gestores, em maio do ano passado, solicitando a aplicação de reajuste em 43% do valor da sessão de hemodiálise; fixação de índice oficial para a aplicação de reajuste anual da sessão de hemodiálise; e fixação de multa e juros em caso de atraso do repasse dos serviços prestados pela unidade de diálise.

Em resposta às solicitações, o Ministério da Saúde concedeu um aumento de 8,47% desde janeiro de 2016, um reajuste bem abaixo do esperado pelo setor.

Saúde renal em números

Revista Servioeste - Saúde e Meio Ambiente Saúde renal em números De acordo com dados da Aliança Pela Saúde Renal, dos 120 mil pacientes em diálise no Brasil, 90% fazem seu tratamento pelo SUS. Nos últimos 10 anos, o...

De acordo com dados da Aliança Pela Saúde Renal, dos 120 mil pacientes em diálise no Brasil, 90% fazem seu tratamento pelo SUS. Nos últimos 10 anos, o número de pacientes com doença renal crônica cresceu cinco vezes mais que a quantidade de clínicas. Somente 7% dos municípios brasileiros têm centros de diálise. Muitos doentes ocupam leitos em hospitais à espera de uma vaga para realizar o tratamento de maneira adequada.

A iniciativa pioneira busca unir todos os agentes do setor (pacientes, nefrologistas, centros de diálises e
indústria) para reverter este quadro. “Nosso principal objetivo é garantir a continuidade do tratamento e a qualidade de vida dos pacientes, além de ampliar o acesso às terapias dialíticas. A diálise peritoneal, uma opção terapêutica domiciliar, que poderia ser uma alternativa para os pacientes que residem em locais distantes dos grandes centros, representa apenas 6% dos pacientes em diálise no Brasil, enquanto a média mundial é de 11%. As empresas que fornecem o material alertam para o risco de descontinuidade do abastecimento, pois está há mais de 11 anos sem reajuste”, apontou a organização em nota.

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