Postado em 23 de Julho às 10h12

Viver é mais que existir

Vida Saudável (28)

Qualidade de vida é o termômetro para medir o desenvolvimento das cidades. Qual é a febre da sua?

Keli Magri

Na hora de mudar de cidade, o que mais pesa na sua escolha? Oferta de trabalho? Segurança? Índices públicos de saúde? Acesso à educação? Mobilidade urbana? A quantidade de áreas verdes? Praias? Espaços para lazer? E se pudesse escolher agora, em qual cidade brasileira você moraria?

As respostas dessas perguntas compõem os índices que medem o desenvolvimento humano dos municípios e enquadram as cidades no ranking de qualidade de vida ofertada. Quais delas asseguram os serviços básicos de forma a promover saúde e a ampliar a expectativa de vida da sua população?

É o que responde o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para avaliar a escalada econômica e social dos municípios. A última avaliação feita pelo Censo 2010 (IBGE) no Brasil apontou as regiões Sul e Sudeste como as melhores para se viver no país. Destaque para os estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Cidades como Maringá (PR), Curitiba (PR), Florianópolis (SC), Balneário Camboriú (SC), São Caetano (SP), Uberaba (MG) e Niterói (RJ) possuem os melhores índices de desenvolvimento. O que todas têm em comum, além de maior expectativa de vida, escolaridade e renda, são mais áreas verdes em plena selva urbana, espaços públicos que permitem lazer e atividades físicas ao ar livre e novos modais que facilitam o transporte público.

Os dados do IDH são reforçados pelo Índice Firjan de Desenvolvimento Urbano (IFDM), elaborado anualmente pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN) desde 2005. Tanto ONU quanto Firjan entendem que o desenvolvimento econômico de uma nação não pode ser medido apenas pela sua renda. A qualidade de vida é a soma do que o dinheiro não pode comprar. É, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a satisfação do indivíduo com a vida cotidiana.

Para o arquiteto especialista em Construções Sustentáveis, Antonio de Macêdo Filho, esse movimento no mundo pode ser chamado de segunda onda da sustentabilidade, que passa a se preocupar com a qualidade de vida das pessoas nos locais onde vivem, muito além do ecologicamente correto.

“A indústria do bem-estar é a que mais cresce no mundo. Se torna menos importante ter um empreendimento se as pessoas não estiverem bem nele. Pessoas mais satisfeitas entregam melhores resultados. Isso vale também para as cidades, que precisam fazer com que os espaços públicos proporcionem qualidade de vida para as pessoas”.

Direito à cidade

Em 1968, o filósofo francês Henri Lefebvre publicava seu manifesto “Direito à Cidade” e lançava sobre a revolução industrial da década de 80 e ao capitalismo um novo e pretencioso olhar. Para ele, que classificava a falta de tempo dos operários para o lazer e a criatividade de nova miséria urbana, a urbanização das cidades é mais importante que a industrialização. Ter tempo e condições estruturais para divertir-se e realizar desejos é para ele o direito à cidade.

Meio século depois, esse direito se tornou um dos principais critérios para o desenvolvimento humano, que para a psicóloga, Adriana May Rossi, não se desassocia das ambições individuais, porém trata-se de uma busca coletiva por oportunidades de usufruir do espaço urbano.

“Individualmente, as ações por maior qualidade de vida baseiam-se em necessidades básicas abstratas de satisfação, que referem-se à crenças e desejos individuais: incluem alimentação equilibrada, exercícios físicos regulares, redução do estresse, mais momentos de lazer, autoconhecimento, controle das emoções, saúde mental. Porém, todas essas condições também dependem de um conjunto de necessidades básicas concretas, ligadas às ações nas esferas públicas que necessitam de intervenções intersetoriais. É preciso ter saneamento básico, acesso à saúde, transporte público urbano, educação de qualidade, etc. Neste contexto, uma sociedade com grandes desigualdades sociais pode interferir na percepção de qualidade de vida da população”, analisa.

Sob esta ótica, a qualidade de vida muitas vezes é vista como privilégio. A liberdade de escolha, o maior tempo para si e mais oportunidades não referem-se apenas ao desejo individual, mas ao acesso às estruturas urbanas capazes de fomentar esse desejo. Quais cidades atendem a isso?

Para a francesa Eva Geneviève, que há três anos trocou a França pelo Brasil, a cidade de Maringá (PR) é uma delas, por incluir qualidade de vida no seu planejamento urbano. Eva morava em Paris e depois de uma viagem a trabalho para a cidade paranaense, se encantou por Maringá e mudou de endereço. A nova casa de Eva é a terceira maior cidade paranaense, com segundo maior índice de desenvolvimento humano no Estado e entre os 10 melhores do país. A 400 km de Curitiba, é conhecida como cidade-jardim e tem o ar mais limpo do Brasil.

“Maringá é uma cidade muito segura, que tem muito verde, bastante sol e as árvores florescem em todas as épocas do ano. Achei incrível isso. Aqui, eu posso atravessar a cidade em 20 minutos de carro ou até de bicicleta. O que mais gosto também é o calor humano. Todo dia tem alguém para me abençoar”, detalha ela, que viaja duas vezes por ano para rever amigos e familiares e fazer compras em Paris.

“Não sinto falta de Paris, a não ser dos produtos orgânicos que são mais fáceis de encontrar lá. O único defeito de Maringá é estar longe do mar”, brinca.

A busca urbana

Ciclovia na Avenida Cerro Azul, em Maringá/PR (Luiz Fernando Cardoso)

O Paraná, aliás, se destaca quando o assunto é qualidade de vida. A capital, Curitiba, tem o sistema de transporte público mais eficiente do Brasil, possui 40 parques e bosques dentro do espaço urbano e foi eleita a metrópole mais sustentável do país.

O que diferencia a cidade é o planejamento sustentável e o uso de tecnologias para o desenvolvimento. Não é à toa que a capital tem o selo de cidade inteligente (Connected Smart Cities) e sediou em março deste ano a feira mundial Smart City Expo reunindo especialistas das maiores cidades do mundo para debater soluções inovadoras e sustentáveis aos municípios.

Curitiba tem uma central de comunicação (disque 156) direta entre governo e cidadão; o primeiro espaço de coworking público do país (Worktiba Barigüi); um ecossistema de inovação (Vale do Pinhão) para eventos gratuitos de economia criativa e tecnologia; aplicativos para agendar o primeiro atendimento na rede de saúde básica municipal e para monitorar o transporte público; Hibribus (ônibus que polui 90% menos), corredores exclusivos e integração de linhas nos terminais e acaba de lançar o aplicativo de táxi oficial da prefeitura.

A estudante Celine de Oliveira, 18, passou por três cidades catarinenses até escolher morar em Curitiba. A capital paranaense é para ela uma cidade plural, que prima pelo verde e pela diversidade cultural.

“O que eu mais amo em Curitiba é a quantidade de parques e praças públicas arborizadas, que ajudam a melhorar o clima e a qualidade do ar. O transporte público também é bem melhor e mais organizado que nas outras cidades. A gente consegue ir pra qualquer lugar de ônibus, o que não é possível em Itajaí (SC), por exemplo, onde também morei. É uma capital que prioriza a qualidade de vida”, destaca ela ao mencionar a limpeza urbana como único ponto que precisa de melhorias.

Pelo Brasil

Capital Mineira, Belo Horizonte

Nesta lista seleta de cidades mais humanas ainda figuram São Paulo (Capital), com 498,3km de ciclovias; São Caetano do Sul (SP), maior taxa de investimento público do Brasil em educação e em qualidade de vida para a melhor idade; Belo Horizonte (MG) com altos índices de saneamento e de sustentabilidade; Uberaba (MG) com 100% de esgoto tratado e Niterói (RJ), 7º melhor IDH do país, com nível mais alto de alfabetização do Estado.

Em Niterói (RJ), a proximidade com a Capital Fluminense (13km pela Ponte Rio-Niterói), as belas praias, a quantidade de universidades e as opções culturais destacam a cidade. É nela que estão localizados, por exemplo, o Museu de Arte Contemporânea (MAC), projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e a Universidade Federal Fluminense (UFF), uma das maiores do país. Para chegar à cidade pela Capital, é possível ir de carro, ônibus ou de barca, pela Baía de Guanabara.

Já a Capital Mineira, Belo Horizonte, se destaca pelo seu clima interiorano no meio da correria de uma metrópole. A cidade é rodeada por três serras (Curral, do Cipó e dos Macacos), diversos parques ambientais e essa natureza farta dá o título a BH de cidade-jardim.

Mas, será que esses bons exemplos podem sustentar a afirmação de que as cidades brasileiras estão mais preocupadas com a saúde e o bem-estar dos moradores? É o que pode revelar pesquisa da ONU sobre a qualidade de vida dos brasileiros feita em 2018 e programada para publicação no segundo semestre deste ano. A consulta, encerrada em dezembro do ano passado, pediu aos moradores para compararem a vida nos centros urbanos, hoje, e há dois anos e responderem, entre outras perguntas, se o acesso a transportes públicos seguros, acessíveis e sustentáveis na cidade onde vivem está melhorando ou se a qualidade da gestão de resíduos, como coleta de lixo e materiais recicláveis, está aumentando.

O resultado, certamente, será um termômetro das cidades para medir avanços e desafios do desenvolvimento sustentável. Medida esta, que para a psicóloga Adriana May Rossi, revela também uma mudança de comportamento urbano.

“As pessoas vivenciam a qualidade de vida a partir daquilo que lhes é significativo, aquilo que faz sentido e conforto para suas existências. Em termos de satisfação de necessidades psicológicas como autoestima, autoconhecimento, valorização e reconhecimento das próprias emoções é possível perceber um despertamento leve e sutil da sociedade, que também está mais atenta para questões como depressão, ansiedade, estresse ou suicídio, grandes preocupações mundiais hoje. Em termos de políticas públicas, há um grande desafio ainda a ser vencido”. 

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