Postado em 22 de Dezembro de 2017 às 09h55

O ar que você respira

Gestão Pública (19)

A delicada relação entre a saúde humana e o meio ambiente.

Por Carol Bonamigo

Em 2014, o cineasta anglo-americano Christopher Nolan escreveu e dirigiu um aclamado filme de ficção científica. Em Interestelar, um futuro distópico não tão distante mostra um planeta Terra com terríveis problemas na agricultura, após uma praga dizimar boa parte das plantas existentes. O resultado disso é uma seca generalizada que traz também sérias complicações respiratórias em boa parte dos seres humanos.

Pode parecer algo improvável e pouco palpável, mas hoje mesmo vivemos situações de risco para grande parcela da população em virtude da poluição do ar, por exemplo. Uma estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que, em todo o globo, nove em cada 10 pessoas respiram ar poluído. Enquanto a ficção científica de Nolan sugere como solução a procura por outros planetas com condições habitáveis para salvar a humanidade, na prática precisamos de alternativas menos fantasiosas.

A qualidade do ar é considerada uma emergência de saúde global. Um estudo realizado por pesquisadores americanos, britânicos e chineses considerou dados de 228 países e concluiu que 3,5 milhões de pessoas morrem prematuramente a cada ano devido à poluição atmosférica. No Brasil, a regulamentação seguida para os indicadores de poluição é de 1990 (Resolução Conama 03/90) e, desde então, a OMS reviu para baixo os valores para considerar boa a qualidade do ar, com base em estudos epidemiológicos.

O conceito de saúde, segundo a OMS, discorre sobre o completo bem-estar do ser humano, no tangente ao físico, mental, espiritual, ambiental, não somente a ausência de doenças. Alguns especialistas afirmam que a pessoa é produto do ambiente em que vive. Isso em termos psicológicos, porém esta afirmação pode servir também para definir as condições físicas de cada indivíduo. Isso porque a exposição a certos níveis de poluição e resíduos dispostos nos meios está intimamente ligada à saúde de cada um.

De acordo com os dados da OMS, 24% da carga global de doenças e 23% dos óbitos prematuros estão relacionados a problemas ambientais.

“Um ser humano com as condições ambientais dignas, com acesso a água de boa qualidade, tratada, esgoto tratado, resíduos coletados e acondicionados de maneira correta, com certeza representa um ser humano saudável. Desta forma, as condições ambientais são imprescindíveis à saúde humana, evitando-se inúmeras doenças que, direta ou indiretamente, assolam a sociedade. Vida digna com saúde ao ser humano, passa necessariamente pelo ambiente onde se vive, e o saneamento ambiental caracteriza o nível de saúde do ser humano”, afirma o engenheiro sanitarista e ambiental e especialista em Desenvolvimento Sustentável, Mauro Narciso.

Uma pesquisa feita pela Organização das Nações Unidas (ONU) revelou que 23% de todos os óbitos prematuros no mundo são causadas por problemas de degradação ambiental, o que corresponde, aproximadamente, a 12,6 milhões de mortes. O saneamento básico representa um dos mais importantes aspectos da saúde pública mundial. “Estima-se que 80% das doenças e mais de um terço da taxa de mortalidade em todo o mundo decorram da má qualidade da água utilizada pela população ou da falta de esgotamento sanitário adequado”, informa Narciso. São patologias como hepatite A, dengue, cólera, diarreia, leptospirose, febre tifoide e paratifoide, esquistossomose, infecções intestinais, consideradas “doenças do subdesenvolvimento”. “No Brasil, embora as informações estatísticas sejam precárias, calcula-se que, em média, apenas 52,8% da população seja atendida por rede coletora de esgoto e que 76,1% dos domicílios sejam abastecidos pela rede geral de distribuição de água. Ou seja: quase 24% da população não tem acesso à água tratada. Estes dados não levam em conta o mal atendimento das concessionárias e, isso tudo, sem considerar as áreas rurais da região norte, nordeste”, alerta o engenheiro.

Recursos Escassos

Revista Servioeste - Saúde e Meio Ambiente Recursos Escassos Com o início da Revolução Industrial e a massificação das atividades econômicas no século XIX, ao longo dos tempos temos assistido...

Com o início da Revolução Industrial e a massificação das atividades econômicas no século XIX, ao longo dos tempos temos assistido paulatinamente à degradação dos ecossistemas, ao esgotamento das reservas naturais; a poluição da atmosfera; a destruição da camada de ozônio; a contaminação do solo, dos oceanos e das fontes de água doce; o desmatamento das florestas; e a extinção de inúmeras espécies animais e vegetais. “É indubitável que o progresso nos traz uma melhor qualidade de vida, seja nos transportes, saúde, comunicação, dentre outros setores. Porém, da forma como vem sendo feito, tem acabado com o ambiente ou, em poucas palavras, destruído o planeta”, lamenta Narciso.

Com a finitude eminente dos recursos naturais, entidades e autoridades mundiais discutem maneiras de equilibrar o desenvolvimento com proteção ambiental. Com a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas – COP21 e o Acordo de Paris, em 2015, o cuidado com o meio ambiente se tornou assunto mundial, onde foi firmado um compromisso global sobre mudança do clima. Mesmo assim, na visão do engenheiro ambiental Daniel Oliveira, pouco tem sido feito. “Infelizmente, o que se tem visto é que as conferências produzem uma série de documentos, pareceres e cartas de intenções, com boas propostas inclusive, mas não se vê estas intenções e acordos ratificados se transformando em políticas públicas. Sem políticas públicas eficientes iremos manter esse cenário de muitas boas intenções e nada de concreto implantado”, critica. 

Mais de 80% das pessoas vivendo em áreas urbanas estão expostas a níveis de qualidade do ar que excedem os limites da OMS. Embora todas as regiões do mundo sejam afetadas, populações de baixa renda são as que mais sofrem impacto. De acordo com o último banco de dados sobre a qualidade do ar em áreas urbanas, 98% das cidades em países de baixa e média renda com mais de 100 mil habitantes não atendem as diretrizes de qualidade do ar da OMS. Em países de alta renda, no entanto, esse percentual cai para 56%.

A OMS estima que nove em cada 10 pessoas respirem ar poluído no nosso planeta.

Enquanto a qualidade do ar em áreas urbanas cai, o risco de acidentes vasculares cerebrais, doenças cardíacas, câncer de pulmão e doenças respiratórias crônicas e agudas (incluindo asma) aumenta para as pessoas que vivem nesses locais.

Portanto, a combinação da baixa qualidade do ar com as condições precárias de saneamento básico se torna uma grande bomba para a saúde humana. “Especificamente no Brasil, essa degradação ambiental está associada ao saneamento, englobando seus quatro eixos que são resíduos sólidos, esgotamento sanitário, água de abastecimento e manejo de águas pluviais. Nosso País apresenta em torno de 50% de universalização destes eixos e, ressalvadas as diferenças nas regiões, faz com que grande parcela da população esteja em constante situação de risco”, declara Daniel.

Medidas preventivas

Narciso informa que, desde meados da década de 1980, a OMS considera o saneamento como a medida prioritária em termos de saúde pública, até porque, de acordo com a instituição, US$ 1,00 investido em saneamento representará uma economia de US$ 5,00 em gastos com prestações de saúde curativa.

No que tange a qualidade do ar, o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) mostra que a implementação de medidas para reduzir as emissões de gases do efeito estufa pode salvar a vida de 2,4 milhões de pessoas por ano até 2030.

Para Narciso, saúde humana, ambiental e saneamento básico estão diretamente relacionados, e somente intervenções diretas nestas áreas poderá mudar o cenário e a saúde da população brasileira. “As principais dificuldades no setor de saneamento básico, sem dúvidas, é a falta de investimento, de políticas públicas desburocratizadas e emergenciais, que priorizem a água tratada para todo o cidadão, esgoto tratado, lixo recolhido e sistemas de drenagem urbana que garanta a segurança da população”.

Já Oliveira propõe o que vem sendo discutido timidamente por algumas potências mundiais. “A diversificação das matrizes energéticas, desvinculando da dependência exclusiva dos combustíveis fósseis, poderá melhorar este quadro, uma vez que as fontes renováveis são menos impactantes. Outro ponto também importante são as queimadas provocadas e que apenas um amadurecimento da cultura e uma educação de qualidade podem fazer com que essas práticas sejam abolidas”, sugere Daniel.

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