Postado em 15 de Junho às 10h04

Embalagens verdes

Ciência (5)

Cientistas buscam plástico biodegradável de qualidade

Os plásticos são compostos por carbono. A origem de grande parte deste elemento químico ainda é o petróleo, matéria-prima fóssil não renovável, finita e não biodegradável. O plástico é utilizado para confecção de artefatos dos mais variados tipos (embalagens, eletrodomésticos, celulares, componentes de carros, brinquedos, etc). O destino de muitos dos resíduos provenientes destes produtos, infelizmente, é a natureza: rios, oceanos, lixões.

A Organização das Nações Unidas (ONU) definiu os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) como parte da Agenda 2030, lançada em 2015 durante a Cúpula de Desenvolvimento Sustentável. Dentre os objetivos estão: consumo e produção conscientes; ação contra a mudança global do clima; redução da poluição marinha, especialmente a advinda de atividades terrestres. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável devem orientar as políticas nacionais e ações internacionais nos próximos dez anos.

Dados do Panorama dos Resíduos Sólidos divulgado pela Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais) atestam que 40% das embalagens plásticas são destinadas a aterros. Um terço são descartadas em ecossistemas como oceanos e florestas tropicais, contaminando o solo, os rios e o ar e causando problemas à saúde, destaca relatório da Fundação Ellen MacArthur. 

Consciência ecológica


“Quando se fala em consumo consciente devemos pensar em todo o ciclo de vida do que estamos consumindo: de onde vem, para onde vai e o que vai gerar depois de descartado”, avalia Maria Lúcia Bianchi, professora doutora da Universidade Federal de Lavras (UFLA), Minas Gerais.

A busca por fontes renováveis de carbono para produção industrial tem no conhecimento científico um grande aliado. O intercâmbio entre instituições de pesquisa, cientistas e indústrias favorece a criação de métodos capazes de contribuir para reverter o processo de degradação ambiental do nosso planeta. Estudiosos de diversas áreas e países procuram na biomassa (material proveniente de recurso natural) a resposta para a obtenção de filmes plástico, por exemplo.

Cana-de-açúcar, vegetais, resíduos industriais, agrícolas ou de pesca possuem potencial de reaproveitamento. Em alguns casos, são utilizados na geração de energia, como o biogás, em outros são descartados de forma incorreta, poluindo o meio ambiente, contrariando a legislação brasileira. Pesquisadores focam-se justamente em reaproveitar os resíduos desta produção para elaboração de plástico biodegradável.

Resíduos da pesca e indústria madeireira

Maria Lúcia Bianchi, professora doutora do Departamento de Química UFLA, coordena grupo de pesquisa que utiliza matéria-prima de fontes renováveis como resíduos da pesca, da indústria madeireira, casca de café, cana de açúcar.

Camila Marra Abras é responsável pelo estudo que utiliza vários desses componentes como a celulose nanofibrilada de eucalipto, a quitosana (proveniente dos crustáceos) e óleo essencial de gengibre. O resultado são filmes poliméricos que poderão gerar embalagens biodegradáveis destinadas a indústrias alimentícia, farmacêutica e biomédica, explica a professora Maria Lúcia Bianchi.

Testes analisaram a resistência, umidade e permeabilidade ao vapor de água, por exemplo: “Os filmes que tinham as maiores concentrações de celulose nanofibrilada e de óleo de gengibre foram os mais eficientes. O teste de biodegradação em solo simulado mostrou que esse filme foi totalmente degradado”, ressalta Camila Abras.

A utilização de resíduos como matéria prima para produção de artefatos por meio de um processo enxuto (utilização de pouca água, pouca energia, poucos reagentes e gerando pouco ou nenhum resíduo) pode baratear o produto final, além de preservar o meio ambiente. “Nosso projeto contribui para valorizar o que não tem valor, dar uma melhor destinação para resíduos, possibilitar a geração de renda adicional seja para a indústria, seja para o pequeno produtor”, ressalta Bianchi.

Carbono proveniente da cana-de-açúcar


Antônio Burtoloso, professor do Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo, em colaboração com pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) - organização social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações -, desenvolve técnica visando a obtenção de moléculas de carbono de forma sustentável e com menor risco ao meio ambiente. O composto químico produzido origina-se do bagaço da cana-de-açúcar e é potencial para fabricação de plásticos. A pesquisa está em fase inicial. Os pesquisadores estão avaliando as características do material, para depois, estabelecer parcerias e a produção em escala piloto.

Há uma tendência mundial, ainda que tímida devido aos custos e à cultura, para o uso de produtos elaborados de forma sustentável. “Se as propriedades dos produtos elaborados com a nossa técnica forem similares às existentes no mercado, o cliente faria a compra com a consciência muito mais tranquila”, afirma Burtoloso.

 

Plástico de amido

Outro tipo de plástico biodegradável, que tem como matéria-prima o amido, foi produzido na Universidade de São Paulo (USP), por meio de parceria entre Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba, e a Escola Politécnica (Poli), em São Paulo.

Os pesquisadores desenvolveram uma técnica que utiliza o gás ozônio para processar o amido e melhorar as propriedades do plástico. O resultado é um produto mais permeável, transparente e resistente, que poderá ser usado em diversos tipos de embalagens. O processamento dos amidos com ozônio permitiu a obtenção de filmes plásticos mais resistentes e homogêneos, detalha Carla Ivonne La Fuente Arias, coautora da pesquisa.

"Estudamos diferentes tecnologias de baixo impacto ambiental para modificação de amido e possíveis aplicações. Chegamos a obter plásticos 60% mais resistentes do que os feitos de amido nativo. São utilizados entre 70 e 80 gramas de amido de mandioca e batata - vegetais integrais - para produzir 100 gramas de filme. O amido obtido dessas matérias primas é largamente utilizado na produção de alimentos, fármacos, tintas, tecidos, roupas e até para extração de petróleo", explica Pedro Esteves Duarte Augusto, coordenador do grupo de pesquisa da Esalq.

O método desenvolvido pelos pesquisadores já teve a patente requerida, visando a transferência de tecnologia para a indústria. A viabilidade econômica depende de diversos fatores, tais como escala, aplicação, planta industrial.

* Com informações de Caio Albuquerque e Henrique Fontes (USP) e Karina Mascarenhas (UFLA).

Veja também

Síndrome do coração partido18/12/19 Estresse físico e emocional causa descarga de adrenalina no coração e pode levar à insuficiência cardíaca temporária similar ao infarto Por Keli Magri Dor no coração. Pode ser saudade de quem se foi, preocupação com uma doença grave, trauma causado por um acidente ou uma separação conjugal. O órgão......
Caranguejos que salvam vidas24/07 Indústria bioquímica depende destes animais para produção segura de medicamentos A expressão sangue azul data do Egito Antigo, está cercada por estigmas étnicos e raciais e é sinônimo de......

Voltar para NOTÍCIAS