Postado em 25 de Setembro às 09h11

É preciso saber viver MAIS

Especial (10)

Lenílson e Zoraide conhecem 32 países

A idade que chega não é problema para quem faz o que gosta. O desafio é ter condições físicas e mentais para envelhecer bem

Angela Piana

Já que um dia a idade chega para todos, então, que seja uma experiência positiva. O avanço na medicina, melhora na renda, acesso ao ensino e a ampliação do número de domicílios com saneamento básico são fatores que contribuem para o aumento da expectativa de vida. Mas nossos idosos estão indo além? Mais do que viver por mais tempo, eles têm vivido com qualidade? Respeitam suas limitações? Há um propósito de vida que os impulsiona a seguir?

Para começar a responder, ter saúde é preciso ter equilíbrio emocional. É o que garante a psicóloga e membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Valmari Aranha, ao falar sobre como é fundamental envelhecer bem.

“Quando estamos bem emocionalmente, fica mais fácil manter as rédeas da própria vida”.
Um fator importante no equilíbrio da balança emocional é o relacionamento social. Com o passar do tempo, o idoso vai perdendo os vínculos naturais que tinha, como os colegas de trabalho, os pais, o companheiro e outras pessoas que a vida acaba afastando. A psicóloga explica, que é necessário buscar novos modelos de vida nesta fase para estimular o pensamento e criar novas rotinas.

“Sair do lugar de conforto é o maior desafio, precisamos estar em movimento, isso significa vida. Por isso é tão importante conhecer pessoas, pois elas vão nos ensinar coisas novas a todo o momento. Aprenda a tocar um instrumento, ouça uma música diferente ou se atreva a ir num lugar que nunca esteve antes. Não se compare com ninguém, porque o único desafio depois dos 60 anos é consigo mesmo. Faça algo possível pra você”.

O Brasil, sempre apontado como um país jovem, em 20 anos será a sexta nação com mais pessoas acima dos 60 anos. Em 2050 serão 73 idosos para cada 100 crianças. Os estados do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro são os que têm os maiores índices de idosos na população, ambos com 18,6%.

Este número vem crescendo consideravelmente nas últimas décadas no País. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1.991 a população idosa era de 10,7 milhões de pessoas, passou para 14,5 milhões em 2.000 e atualmente existem cerca de 29 milhões de idosos. Os índices mostram que somos um país que está envelhecendo mais e até 2060, o número chegará a 73 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. No mundo, são 700 milhões de idosos, número que alcançará 2 bilhões em 2050.

De fato, a preocupação com a terceira idade é necessária, porque estamos vivendo mais. A estimativa da ONU é que até 2050 a esperança de vida subirá para 81,2 anos no Brasil, índice semelhante ao de países como China e Japão. 

Equilíbrio entre corpo e mente

O aposentado Antônio Chiquelero, 65 anos, cuida da saúde mental e física correndo. Ele é integrante de um grupo de corredores e já participou de mais de 300 competições. O esporte deu a ele uma coleção de medalhas, troféus e muitos amigos. Além de indicação médica por causa de um desgaste na coluna e na bacia, ele consegue controlar o estresse do dia a dia com a atividade física.

Motivado, ele explica que relaxa, fica alegre e ainda faz planos: “já encontrei a solução de vários problemas depois da corrida porque eu consigo pensar melhor, parece que as ideias fluem”, comemora.

Um dos momentos mais difíceis na vida do seu Antônio foi superado com a contribuição do esporte. A corrida o ajudou a vencer um trauma depois de um assalto, quando foi arramado por ladrões que levaram dinheiro, implementos agrícolas e alguns animais da fazenda onde trabalhava.

“Eu tinha pavor de tudo e nem correr eu conseguia depois do assalto. Mas foi por pouco tempo. Logo voltei e foi a melhor coisa que fiz, porque minha mente espairece e eu superei meus medos”, relembra.

A corrida entrou na vida de seu Antônio por acaso, há 30 anos, num evento de integração na agroindústria onde trabalhava em Chapecó/SC. Um colega o inscreveu numa prova de corrida rústica de sete quilômetros para que o setor deles pudesse ganhar pontos por participação numa gincana interna. Mesmo sem acreditar que conseguiria, ele aceitou o desafio, completou a prova e chegou em terceiro lugar.

“Nos dias seguintes eu senti muita dor no corpo e tinha que ir de ônibus para o trabalho porque não conseguia caminhar direito. Fiquei com raiva, mas meu colegas começaram a me dar os parabéns e aquilo foi me motivando até que decidi correr de novo. Quando percebi, estava correndo três vezes por semana e nunca mais quis parar”, conta orgulhoso.

Hoje, as provas de longa distância são suas preferidas. Em outubro deste ano, seu Antônio vai correr 12 horas seguidas numa ultra maratona em União da Vitória/PR e no mês seguinte, o desafio com o mesmo tempo de prova, acontecerá em Cascavel, também no Paraná. Os treinos estão intensificados: são 15 quilômetros de corrida, quatro vezes por semana.

Estar perto dos amigos e da família, tomar seu chimarrão e treinar são as escolhas que Antônio faz para se manter bem fisicamente e mentalmente. Dos desejos da vida, ele espera poder continuar conhecendo novas cidades, fazendo novas amizades e ainda vencendo muitas corridas.

“Eu incentivo outras pessoas porque correr não é só pelo corpo, é se sentir bem por completo”. 

Na faculdade aos 80

Ter um propósito de vida ajuda as pessoas a serem mais felizes e realizadas em qualquer idade e, sem isso, a tendência é que elas se sintam inúteis e desenvolvam uma sensação de vazio e frustação.

“Talvez seja ainda mais importante ter um objetivo na terceira idade”, explica a psicóloga Valmari Aranha, ao reforçar sobre a importância de sempre estar em movimento.

E o que dizer de quem chegou aos 80 anos com propósitos bem definidos e com o mesmo entusiasmo da juventude? Ivo Klug venceu a barreira do concorrido vestibular de Engenharia de Controle e Automação, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Eram 100 vagas para o campus de Blumenau e ele ficou em 63º lugar, motivo para muita comemoração. “Quando eu soube que fui aprovado, dei um berro, sabe aquele de emoção? Eu fiquei muito emocionado, é uma grande alegria” relata, entusiasmado.

Seu Ivo é engenheiro mecânico e atualmente trabalha como responsável técnico na construção de elevadores. Ele decidiu voltar à sala de aula em busca da inovação para ampliar sua área de atuação e não se importa com as dificuldades que sabe que terá que enfrentar.

“Eu gosto de estudar e sei estudar. Eu me vejo em condições de realizar os sonhos da minha vida, de trabalhar com firmeza. Eu quero aprender pra valer, para projetar e entender os projetos por completo, inclusive na área eletrônica”.

A busca pelo conhecimento é algo invejável e sempre fez parte da vida de seu Ivo que, profissionalmente, já atuou em vários setores. Passou pelo Exército, trabalhou em bancos, escritórios de contabilidade, indústria química, foi para a Alemanha estudar equipamentos de porcelana, passou pela indústria têxtil, fundição de aço e ferro.

Em 1.968 ele se formou em Engenharia Mecânica, fez cursos de informática, NR 10 (Segurança em Instalações e Serviços com Eletricidade) e Eletrônica Básica, fez estágio sobre Geração Elétrica na França, é especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho e quando se aposentou em 2003, decidiu lecionar, atividade que seguiu até o ano passado. E o desafio não para: agora ele vai dividir o seu tempo entre o trabalho com a construção de elevadores e a nova graduação.

Descobrir uma vocação na vida é a receita de Ivo para não perder o entusiasmo.

“A minha eu descobri trabalhando numa área que não era minha: fabricar cerveja. Eu poderia estar lá há mais de 50 anos, mas eu resolvi fazer engenharia, porque eu descobri na cervejaria que a minha vocação era máquinas e hoje continuo buscando aperfeiçoamento”, afirma o engenheiro, quando questionado sobre o segredo para uma vida feliz. E quando fala em aproveitar mais a vida, ele conclui: “é preciso cuidar da saúde, não parar de trabalhar e valorizar e preservar as relações com familiares e amigos”. 

Qual o próximo destino?

Eles já criaram os filhos, quando podem aproveitam o tempo ao lado dos netos, são aposentados, mas estão sempre ocupados. Aos 70 anos, ele ainda trabalha como representante comercial e ela, aos 67, é síndica do prédio onde moram, concluiu recentemente a faculdade da terceira idade e participa de uma oficina da memória. Apesar de estarem com a agenda sempre cheia, Lenilson e Zoraide Rangel dispensam qualquer compromisso quando o assunto é viajar.

O casal já visitou 32 países, esteve em praticamente todos os estados brasileiros a passeio e já estão repetindo alguns roteiros, como às praias do Nordeste. Entusiasmada, dona Zoraide justifica: “nunca é a mesma coisa voltar, tudo muda e sempre tem algo novo pra gente aprender e conhecer”. Por ano, eles programam pelo menos duas grandes viagens, uma delas para o exterior.

Cada momento é lembrado com muito carinho através de lembrancinhas espalhadas pelo apartamento onde moram, em Chapecó/SC, e de milhares de fotografias devidamente identificadas e perfeitamente organizadas em vários álbuns.

Lenilson e Zoraide contam que costumavam fazer viagens mais curtas aos fins de semana, feriados e durante as férias, normalmente para visitar familiares em Campos de Goytacazes/RJ. Com os filhos crescidos, a história mudou e há cerca de 20 anos os passeios foram se diversificando e tornaram-se mais frequentes e longos. A estratégia financeira é reservar anualmente o que eles chamam de “verba de entretenimento”.

“Nada paga o que a gente adquire viajando. Nós abrimos mão de qualquer coisa para viajar. Muitas pessoas só passam pelos locais, a gente aproveita, mas não esbanja. Eu sempre pesquiso sobre o lugar e o ideal é viajar na baixa temporada. Quando desembarcamos, conversamos muito com as pessoas porque isso nos ajuda a encontrar os melhores restaurantes, os melhores hotéis e os melhores passeios”, orienta Lenilson.

O casal ainda não definiu o destino da próxima viagem. Sem pressa, eles pesquisam opções e demonstram o entusiasmo com que vivem cada momento desta busca, principal motivação para uma vida melhor.

O tripé da saúde

Se o tempo de vida está se tornando mais longo, é preciso que ele seja vivido com qualidade. O médico geriatra e diretor científico da Sociedade Brasileira de Geriatria, Alessandro Verffel, acredita que três pilares são fundamentais: atividade física, dieta e interação social.

“Quem consegue um equilíbrio neste tripé desde jovem, certamente vai viver melhor quando chegar na terceira idade”, explica.

Por volta dos 30 anos começamos a perder massa muscular e óssea, que significa perder força, com grande tendência ao aumento do percentual de gordura, favorecendo o aparecimento de doenças. A atividade física não reverte o declínio fisiológico do corpo, mas ameniza a velocidade do processo, por isso, Verffel reforça a importância da prática desde cedo.

“Já que temos que fazer, então escolha algo que você goste e que seu corpo permita, assim não vai desistir. A Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta a prática de 150 minutos de atividade física por semana”, reforça o médico.

A dica de aliar atividade física com uma alimentação saudável para obter bons resultados na saúde, também vale para a terceira idade. A dieta segue, de forma geral, os mesmos princípios da recomendada para um adulto, porém, é preciso estar alerta devido à falta de vitaminas no organismo nesta idade.

“Toda dieta ou atividade física precisa ter a orientação de um profissional, porque só ele consegue avaliar o que cada idoso precisa”, salienta Verffel ao ir além.

“As pessoas de forma geral estão se cuidando mais, mas não espere para procurar um geriatra só na terceira idade, vá logo depois dos 30 anos porque prevenção e controle são fundamentais para manter o equilíbrio da nossa vida. Só assim vamos viver melhor”. 

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