Postado em 25 de Setembro às 09h04

A medicina que voa

Gestão de Saúde (28)

Surgido na Primeira Guerra Mundial, serviço aeromédico cresce como braço do atendimento pré-hospitalar móvel e reduz tempo de resgate e número de mortes no mundo

Keli Magri

Quanto tempo é necessário para salvar uma vida? A imensidão de probabilidades entre um piscar de olhos e os 75 anos estimados pelo índice de longevidade brasileira encontra resposta em uma estatística médica usada no atendimento pré-hospitalar de pacientes gravemente feridos: há uma “hora de ouro” entre a vida e a morte ou menos de 60 minutos para sobreviver.

O conceito é do cirurgião americano R. Adams Cowley que, em 1960, delimitou este tempo como crucial para o início do tratamento definitivo do paciente com traumatismo grave. É nesta hora de ouro que se determina sobrevivência ou não, sequelas ou não.

É também este conceito que faz as equipes de serviço de saúde de Atendimento Pré-Hospitalar (APH) correrem contra o tempo no resgate e transporte de pacientes e feridos mundo afora. Para dar mais versatilidade ao trabalho, agilizar o resgate, salvar mais vidas, diminuir o número de mortes e aumentar as chances de sobrevivência, o setor aposta na modalidade que surge como complemento do atendimento realizado em terra: o serviço aeromédico ou UTI aérea. São aeronaves, aviões ou helicópteros, equipadas para o atendimento médico emergencial e conduzidas por pilotos, médicos, enfermeiros e tripulantes treinados para o serviço pré-hospitalar.

No mundo todo, são 2.500 aeronaves para transporte aeromédico inter-hospitalar, 800 delas na Europa, onde existe um helicóptero para cada 1 milhão de habitantes. No Brasil, são 260, as quais são empregadas no serviço público de segurança, em operações policiais, multimissão entre polícias, bombeiros e SAMU, fiscalização e transporte de órgãos e de tropas. Em média, são realizados no Brasil cerca de 7 mil transportes aeromédicos por ano. Nos Estados Unidos, o número chega a 16 mil.

De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), 60% dos transplantes de órgãos e tecidos são transladados por aviões e helicópteros em 4,5 mil operações aeromédicas a cada ano.

Tempo de resposta decide a forma de resgate

Em Chapecó, no Oeste de Santa Catarina, sete médicos, três enfermeiros, quatro pilotos, quatro copilotos e 12 tripulantes formam a equipe responsável pelo SAER/SARA-FRON (Serviço AeroPolicial de Fronteira e Serviço de Atendimento e Resgate Aeromédico). A equipe médica trabalha em multimissão com a Polícia Civil e divide o helicóptero com o atendimento aeropolicial em 86 municípios do Oeste e Extremo-Oeste do Estado, até a fronteira com a Argentina.

Desde 2015, eles comandam o transporte aeromédico em uma das quatro aeronaves usadas para os Serviços de Helicópteros de Emergência Médica (HEMS) em todo o território catarinense.

No Estado, o serviço é prestado desde 2010 pelo Batalhão de Operações Aéreas do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (BOA/CBMSC), em parceria com a Secretaria Estadual da Saúde, através do Serviço Móvel de Urgência (SAMU).

É o SAMU que aciona o atendimento aeromédico, de acordo com a análise do tempo de resposta para o resgate. O helicóptero é acionado quando a diferença de tempo terrestre/aéreo for superior a 15 minutos para casos graves ou quando o acesso terrestre for difícil ou impossível.

“Em algumas regiões catarinenses o tempo de deslocamento a um hospital supera a hora de ouro e, nestes casos, o helicóptero é decisivo. Levamos, por exemplo, sete minutos para transportar um paciente de Chapecó a Xanxerê, o que por terra levaria 45 minutos. De Chapecó a São Miguel do Oeste, são 35 minutos de helicóptero e 2h30min de ambulância. Faz toda diferença”, ressalta o médico Alexsandro Rosa, coordenador do Serviço de Atendimento e Resgate Aeromédico (SARA) em Chapecó.

“Atendemos muitos casos de infarto e sabemos que quanto mais tempo a pessoa passar em infarto, mais sequelas terá. Um atendimento de infarto agudo do miocárdio, por exemplo, o tempo de espera para o início da terapia trombolítica, que ocorrerá só após a chegada ao hospital, desde o primeiro contato com o paciente deve ser inferior a três horas, para que o benefício da angioplastia primária esteja presente. Além de salvar vidas, a redução do tempo do resgate significa menos tempo de UTI”, acrescenta o médico.

De acordo com o especialista em HEMS (Helicóptero de Emergência Médica) da Airbus, Ralph Setz, o serviço aeromédico no mundo já mostra a redução da mortalidade e do tempo de entrada e de estadia no hospital.
“Estudo realizado na Inglaterra com 250 mil transportes de traumas constatou que o serviço aeromédico reduziu a mortalidade em 22% em relação ao terrestre.

São 10 a 45 minutos poupados no resgate, suficientes para reduzir também o tempo de entrada e de estadia no hospital. Os pacientes resgatados via terrestre ficaram quatro dias a mais no hospital, o que também impacta nos custos. O ideal é que tenhamos ambulância em terra, com complemento do helicóptero”, sublinhou o especialista, durante palestra sobre o tema no ano passado no Rio de Janeiro.

A Airbus é responsável por mais da metade da frota de helicópteros de emergência médica no mundo todo.

Voo contra o tempo para salvar vidas

Ao ser acionada pelo SAMU, a equipe do SARA em Chapecó se prepara para a missão. Cada resgate envolve cinco profissionais: piloto comandante, copiloto, um médico, um enfermeiro e um tripulante. Os dois primeiros, antes mesmo de saberem qual é a ocorrência, analisam a fisiologia e condições do voo para realizar o resgate em segurança. O helicóptero faz operações apenas diurnas, das 7h30 ao pôr do sol, já que não há equipamentos para o atendimento noturno, quando também não há autorização de pouso em locais não homologados.

O helicóptero do SAER/SARA-FRON possui todos os equipamentos básicos necessários para intervenções imediatas, como cardioversor e monitor cardíaco, respirador, maca, bombas de infusão e aspirador. A bordo da aeronave, também estão disponíveis todas as medicações encontradas em UTIs.

Enquanto médico e enfermeiro são responsáveis pela estabilização do paciente desde o atendimento em solo até o hospitalar, o tripulante, um policial civil treinado para o resgate aéreo, tem a missão de orientar piloto e copiloto para o pouso seguro.

“Ele é o nosso olho. Quando precisamos pousar no meio da rodovia ou na mata, ele nos orienta sobre o local, se há pessoas, objetos ou impedimentos para o pouco. Sem ele, ficaria impossível pousarmos”, explica o copiloto da equipe SARA, Jorge Safe, que também se divide entre o atendimento aeropolicial e o aromédico.

“Passamos por treinamentos e cursos técnicos, além da formação em aviação civil e credenciamento na ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil). O comportamento de voo é diferente em cada operação. Enquanto no policial, o voo é mais agressivo e exige mais manobras, no médico é mais suave, estável e não pode ter manobra brusca”.

O ponto de maior tensão no resgate aeromédico é o pouso em locais restritos e desconhecidos. Em acidentes de trânsito, por exemplo, em curvas nas rodovias, em serras onde a visibilidade e o deslocamento são mais difíceis.
São estes cenários que também impactam no trabalho dos enfermeiros.

“Em hospitais, tudo é estável e padrão. Há mais gente, mais suporte, mais tempo, além de espaço maior e equipamentos à mão. No atendimento aeromédico, tudo é diferente, o cenário muda todo dia. Você pode atender um acidente numa rodovia, ou capotamento em ribanceira, um incêndio na mata, um infarto no meio da rua. É uma corrida contra o tempo todos os dias”, conta o enfermeiro Alcione Mecca, que tem 14 anos de SAMU e quatro de SARA.

Falta de helipontos é maior desafio

Entre os atendimentos aeromédicos emergenciais feitos pela equipe SARA, estão o transporte de pacientes de hospitais menores para maiores, resgate de vítimas de acidentes de trânsito, traumas e de quedas, infartados e doentes em estado grave. Em escala menor, o helicóptero também faz o transporte de órgãos quando acionado ou quando há impedimento pela equipe das demais aeronaves dos bombeiros catarinenses. São cerca de 25 atendimentos por mês.

Um dos maiores desafios do trabalho, de acordo com o coordenador do SARA, Alexsandro Rosa, é a falta de locais específicos para pouso do helicóptero nos hospitais. A maioria não tem heliponto, sequer lugar reservado para pouso seguro.

“Em Maravilha e Pinhalzinho, os hospitais destinaram locais específicos para pouso, bem perto da emergência, o que facilita nosso atendimento. No Hospital Regional Oeste, em Chapecó, maior da região, o local reservado é um terreno ao lado, com muita brita e areia, o que dificulta o pouso. Já em Xanxerê, no maior hospital cardíaco da região, não há lugar para pouso.

Precisamos pousar em um campo próximo e esperar pela equipe da ambulância em terra. Seria melhor se os hospitais tivessem um lugar específico para pouso, não precisa ser um heliponto homologado, mas pelo menos um espaço perto, bem sinalizado”, ressalta o médico.

Outra demanda do serviço aeromédico e aeropolicial, segundo o delegado Albert Silveira, que coordena todo o trabalho do SAER/SARA-FRON, é a busca de novos equipamentos para operações noturnas e de combate a incêndio. 

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