Postado em 13 de Outubro de 2017 às 14h32

A energia que vem do Sol

Especial (10)

Buscando novas fontes de energia, as renováveis e limpas estão cada vez mais em voga, como a solar, que não polui e nem emite gases de efeito estufa.

Por Carol Bonamigo

A procura por alternativas aos combustíveis fósseis, como o carvão e o petróleo, está elevando a criatividade humana para criar formas não poluentes de energia. Essa preocupação com o meio ambiente e o bem-estar da população gera, também, economias aos cofres públicos, uma vez que essas fontes de energia são renováveis e provenientes da própria natureza.

Várias iniciativas têm se popularizado pelo mundo no intuito de mostrar os potenciais da energia renovável. Na Holanda, por exemplo, foi implantada uma ciclovia, no final de 2014, com 70 metros de extensão, construída com um material especial que substitui o asfalto e gera energia limpa a partir dos raios solares. Essas fileiras de células solares geram cerca de 70 quilowatts/hora por metro quadrado, o suficiente para abastecer de energia três casas por 12 meses.

Já a Coréia do Sul foi além, em 2015, ao cobrir com placas de captação solar a estrutura protetora em uma ciclovia de 32 quilômetros. Como mostramos na edição passada da Revista Servioeste, um dos pontos turísticos mais visitados do Brasil, o Bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, também aderiu à sustentabilidade. O teleférico passou a ser movido à base de energia solar, com a instalação de painéis de placas fotovoltaicas, através do projeto da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar (CCAPA), em uma parceria com a Panasonic e a empresa de energias renováveis Alsol.

Gerando a própria energia

Revista Servioeste - Saúde e Meio Ambiente Gerando a própria energia Essas iniciativas devem ser valorizadas por todos, uma vez que consumir energia de forma consciente é optar por fontes mais sustentáveis já existentes,...

Essas iniciativas devem ser valorizadas por todos, uma vez que consumir energia de forma consciente é optar por fontes mais sustentáveis já existentes, demandar do mercado soluções de qualidade e em quantidade adequadas e prestigiar políticas públicas que facilitem a viabilidade de aplicação dessas alternativas em larga escala.

A matriz energética brasileira, em sua grande parte, possui a energia renovável presente principalmente de fontes hídricas (cerca de 70%) e, embora as hidrelétricas provenham de recursos naturais, trazem também impactos ambientais. Para o empresário da área energética Nelson Eiji Akimoto, o grande desafio é ampliar o uso de energia renovável, de preferência com a eólica e solar, para substituir os combustíveis fósseis e nucleares. “As energias eólica e solar são hoje encaradas como complementares e muito importantes, pois com a evolução tecnológica e a escala que o uso tem atingindo, vem se tornando economicamente viável. Nossa maior perspectiva está nas pessoas, pois temos várias instituições de ensino técnico e superior na área das engenharias que, por meio de pesquisas e desenvolvimento, podem chegar a novas alternativas de fontes renováveis de geração de energia ou melhorias nas já existentes”, pontua Akimoto.

De acordo com o Instituto Akatu – uma organização não governamental sem fins lucrativos que trabalha pela consciencialização e mobilização da sociedade para o consumo consciente –, por ser renovável, a energia solar tem uma produção mais limpa que a energia elétrica atualmente produzida no Brasil, que com suas fontes termoelétricas emite muitos gases de efeito estufa, causadores das mudanças climáticas. “Tendo sua própria geração de energia elétrica, seja nas residências ou em pequenos negócios, o consumidor adquire controle sobre o custo da geração, o que não ocorre quando o preço da energia elétrica flutua de acordo com os vários fatores de mercado”, afirma o Instituto.

E parece que a população brasileira está ciente disso. Uma pesquisa sobre micro e minigeração de energia encomendada ao Datafolha revelou que para 48% dos brasileiros economizar na conta de luz é a principal motivação para gerar sua própria energia, por meio de placas solares, por exemplo. Além disso, 17% dos entrevistados se veem mais motivados pela possibilidade de se tornarem independentes das distribuidoras de energia. Também pudera, com os aumentos constantes na conta de luz nos últimos dois anos, que chegaram a mais de 50% na média nacional e 80% em algumas regiões.

Conforme o estudo, 80% da população sabe da possibilidade de gerar sua própria energia e 72% faria a aquisição do sistema de autogeração se houvesse linhas de crédito com juros baixos, sendo que 50% estaria disposta a usar seu FGTS para tal fim.

O empresário Lenoir Carminatti, de Chapecó, Santa Catarina, usa esse sistema desde 2013. Sua empresa de eletrônica industrial possui 12 painéis fotovoltaicos com instalação de 3kW. A experiência deu tão certo que Carminatti instalou um sistema com 12kW em sua segunda companhia há três meses, com 48 painéis fotovoltaicos. “Economizamos R$ 7.300,00 na primeira e R$ 2.800,00 na segunda. Além de ser uma energia limpa, o investimento se paga”, relata. Na sua visão, os investimentos em energia solar poderiam crescer com a aprovação da lei de isenção do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) que tramita na Assembleia Legislativa do estado.

“Atualmente, quando usamos a energia excedente que foi para a rede da concessionária, é pago imposto. Ou seja, pagamos imposto de uma energia que produzimos. A maioria dos estados já aderiu à isenção, Santa Catarina ainda não”, frisa Carminatti. “Isso poderia colaborar para diminuir o pay-back dos investimentos e levar mais usuários a aderirem ao uso da energia renovável e alternativa”, acrescenta Akimoto.

Incentivo para aderir à energia limpa

De acordo com dados divulgados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), de 2015 para 2016 o número de conexões de micro e minigeração de energia teve um crescimento de aproximadamente 340% no Brasil. Em setembro de 2015, eram 1.148 conexões registradas em todo o País, e em agosto de 2016 houve um salto para 5.040 ligações.

Em fevereiro deste ano, as Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc) abriram inscrições para moradores do estado que queiram participar de um programa de geração de energia solar. Através do Projeto Bônus Eficiente – Linha Fotovoltaica, a empresa subsidiará 60% do custo de painéis solares para mil residências. Até o início de julho, mais de 200 instalações haviam sido feitas. O benefício principal para o consumidor é a economia na conta de energia elétrica que, após a instalação dos painéis fotovoltaicos, pode chegar a R$ 2 mil por ano. “A energia solar fotovoltaica é gerada pela radiação solar, que é captada por módulos e convertida em energia elétrica. Além de economizar, o cliente contribui para a preservação do meio ambiente, utilizando uma energia limpa e eficiente”, destaca Marcio dos Santos Lautert, coordenador do projeto Bônus Fotovoltaico da Celesc. 

Revista Servioeste - Saúde e Meio Ambiente - Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), até 2024 o Brasil pode ter mais de 1,2 milhão de sistemas conectados à rede elétrica.
Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), até 2024 o Brasil pode ter mais de 1,2 milhão de sistemas conectados à rede elétrica.

O projeto atende a proposta do Governo Federal, por meio da Resolução Normativa da Aneel nº 482/2012, de incentivar o consumidor a gerar energia a partir de fontes renováveis e, inclusive, fornecer o excedente para a rede de distribuição, em processo denominado Geração Distribuída. Desta forma, o Bônus vai acelerar a popularização da microgeração fotovoltaica no País ao investir recursos de R$ 11,3 milhões do Programa de Eficiência Energética PEE/Celesc. “Este projeto é importante para o cenário nacional, pois, a médio prazo, os dados obtidos através do monitoramento dos inversores e dos medidores de energia permitirá observar se há alteração do hábito de consumo nas residências onde os sistemas são instalados. Isso auxiliará na avaliação da necessidade de reforço do sistema de distribuição, além de permitir o estudo da alteração na qualidade de energia em decorrência destas instalações. A longo prazo, pode ocorrer uma alteração na matriz energética brasileira, e os envolvidos devem estar preparados para esta mudança”, observa Lauter.

Mudança necessária, diga-se de passagem. A cada dia, mais empresas e pessoas físicas estão preocupadas em preservar o planeta e buscar fontes de energia renováveis. Para o presidente conselheiro da Fundação Científica e Tecnológica em Energias Renováveis (FCTER), Gilson Vivian, é preciso promover e divulgar pesquisas e estudos na área da sustentabilidade. “O homem passou muitos anos gastando os recursos naturais e agora chegou a hora de retomar e buscar alternativas renováveis, visando a sustentabilidade, para que as gerações futuras possam se beneficiar com isso. Pensar na causa coletiva e no bem comum. Porém, sustentabilidade não é algo poético. Não adianta apenas promover o social e deixar o caixa deficitário. Precisa ter o retorno, e aí entram os estímulos”, afirma.

Vivian se refere ao ICMS cobrado na conta final da energia elétrica, inclusive em caso de autogeração. Conforme explica o engenheiro eletricista e diretor geral da FCTER, Alcides José de Farias Filho, isso é um dos fatores que tem impedido esse novo sistema de deslanchar. “O custo, em si, é alto. Mas todas as novas tecnologias iniciam dessa forma e é preciso investimentos até se popularizar. O problema está em gerar a própria energia, disponibilizar o excedente na rede de distribuição e, quando for utilizar novamente, ter que pagar o ICMS”, exemplifica o especialista.

A verdade é que forçamos o consumo ao máximo e agora deve-se pensar maneiras menos poluentes, através de uma consciência coletiva. “Nosso planeta não suporta mais crescimento de consumo de energia. Precisamos frear isso e toda ação que puder amenizar é bem-vinda. Produzindo a própria energia e tendo a responsabilidade de gerar menos lixo, ajudaremos a preservar o meio ambiente”, opina Farias Filho.

Revista Servioeste - Saúde e Meio Ambiente É importante ressaltar que os benefícios em aderir à energia solar vai muito além do financeiro. Por ser abundante e permanente, renovável a cada dia, não polui...

É importante ressaltar que os benefícios em aderir à energia solar vai muito além do financeiro. Por ser abundante e permanente, renovável a cada dia, não polui e nem prejudica o ecossistema. Conforme o Ministério da Educação (MEC), a energia solar é a solução ideal para áreas afastadas e ainda não eletrificadas, especialmente num país como o Brasil onde se encontram bons índices de insolação em qualquer parte do território. De acordo com o MEC, para cada um metro quadrado de coletor solar instalado evita-se a inundação de 56 metros quadrados de terras férteis, na construção de novas usinas hidrelétricas.

De acordo com o MEC, uma parte do milionésimo de energia solar que nosso País recebe durante o ano poderia nos dar suprimento de energia equivalente a:

  • 54% do petróleo nacional
  • 2 vezes a energia obtida com o carvão mineral
  • 4 vezes a energia gerada no mesmo período por uma usina hidrelétrica.

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